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07/03/2014

Verdade verdadinha


Literature is the right use of language irrespective of the subject or reason of utterance.
 
Evelyn Waugh

28/10/2013

Ah, as redes sociais, as redes sociais...

Blogues, twitters e facebooks são uma ótima maneira de comunicarmos uns com os outros. Contudo, também revelam muitas vezes o mal que comunicamos. Diariamente, todos tropeçamos em gralhas ortográficas, erros gramaticais e raciocínios confusos, nossos ou alheios. No outro dia, li a seguinte frase no mural de alguém no Facebook:  

«Agradeço imenso de me ter aceite no seu grupo de Amigos.»

Ora, como já vimos aqui, imenso não deve ser usado desta maneira. Depois, nós agradecemos coisas, não agradecemos de coisas. Como também já referi aqui, com «ter» dizemos «aceitado» e não «aceite». Por fim, porquê escrever «amigos» com inicial maiúscula? Não faz sentido.

De uma só penada, uma série de erros. Não é grave, claro que não, mas tem a sua importância. Quando escrevemos nestes fóruns (tão vintage, falar em fóruns, não é?) estamos  a escrever para o mundo. E o mundo já é um sítio tão violento... não precisa dos nossos pontapés na língua.

09/04/2013

Odiar palavras

 

Ler é maravilhoso, escrever também, as palavras são pombas que pousam na linha telefónica e veiculam sentidos, música para os nossos ouvidos. 
 
Porém, contudo, todavia... há palavras horríveis. Não falo dos palavrões, claro, que os há bem engraçados e têm uma função muito concreta, a de serem palavras desagradáveis, que quase sempre cumprem bem. Não. Falo de palavras que nos provocam arrepios quando deparamos com elas.

Em tempos, a palavra «panado» era-me insuportável e nunca soube dizer porquê (eu, que até gosto dos ditos). Com o tempo, passou-me. Uma que será para sempre detestável é «badalh**o/a». Custa-me escrevê-la, sou incapaz de a dizer e, actualmente, só me é mais suportável ouvi-la porque alguns amigos decidiram sujeitar-me a uma terapia de insensibilização, à força de tanto a repetir para me arreliar. Dantes encolhia-me, agora já não, embora ainda me custe.

Quem gosta muito de palavras, naturalmente, está propenso a ganhar uma aversão profunda a algumas delas, por vezes de forma bastante drástica e irracional.
O leque das palavras que costumava incomodar-me era muito maior; agora resume-se a umas quatro ou cinco. É claro que continuo a ter outro tipo de ódios de estimação (ou pet peeve, em inglês)* relativos à linguagem, mas isso fica para outro dia.


*A propósito, peeve é uma palavra horrorosa. Sim, também é possível amar ou odiar palavras noutra língua que não a materna.


PS: Se acham piada ao assunto, recomendo este artigo. Conheço uma pessoa que detesta, precisamente, a palavra moisture. :)


21/11/2012

Ser ou não ser suposto, eis a questão

A Flama é uma empresa portuguesa que fabrica eletrodomésticos. As embalagens dos seus artigos têm até o logótipo de «produto português» (que, curiosamente, diz «made in Portugal»*). Há uns dias, comprei uma tostadeira desta marca e, ao ler o folheto com os conselhos de utilização, deparo com o seguinte:


«Este aparelho não é suposto ser utilizado»? Isto parece uma má tradução do inglês this device is not supposed to be used...  Ninguém diria que se trata de uma marca nacional a comunicar para um público lusófono. 

Não seria mais fácil e menos ambíguo dizer que o aparelho não deve ser utilizado nestas e naquelas circunstâncias? Será dever demasiado assertivo? Será que assim parece mais sofisticado? Acho que não. E, com tantas alternativas todas elas mais lógicas e eficientes , não percebo o motivo do disparate. 

O «ser suposto», neste e noutros contextos, não chega a ser mau português porque não é português de todo. É um defeito de fala de raciocínio! que se generalizou, que já passou para a escrita e que devemos evitar. Recusemos absorver e promover a asneira, sobretudo se ela for importada.


Nota: a versão espanhola das instruções já diz que o aparato no debe...



*Produto mais português do que a nossa língua não há.

21/09/2012

Simplificar

 

Segundo Alan Siegel, temos demasiado palavreado burocrático em todo o tipo de documentos, o que só baralha quem tem de compreender os seus direitos, os seus deveres e assinar por baixo. A sua proposta é simples: simplificar. Ou seja, a papelada deve ser breve e inteligível.
São 4 minutinhos de vídeo que valem bem a pena.


31/08/2012

A pessoa visualmente mais incapacitada é a que não pretende visualizar

Linguagem e política são termos praticamente sinónimos, o que é natural e inevitável. Contudo, esta realidade manifesta-se, por vezes, de formas bizarras, como no caso do discurso «politicamente correto», que redunda sempre em disparate. Seja pelo eufemismo escusado, pela corrupção do sentido original das palavras ou pela complicação desnecessária das ideias, este alegadamente «correto» fere os ouvidos de quem ouve e os olhos de quem lê.
Um último exemplo disto foi protagonizado por Jerónimo de Sousa, há uns dias, que, num comício, afirmou que «é mais fácil apanhar um mentiroso do que um deficiente de uma perna». Subverter desta forma um dito popular, especialmente por parte de um político que se gaba de denominar os bovídeos pela respectiva nomenclatura, é um verdadeiro ato de contorcionismo linguístico e ideológico.

Não se negue nem subestime o poder da linguagem. Combatam-se as tolices deste género. Se não estivermos atentos, o que começa num «recepcionar» rapidamente passa a  eduquês e, num instante, estamos todos a falar a novilíngua.