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28/11/2013

Assumir e presumir

De há uns anos a esta parte, vejo todos os dias gente a dizer e escrever coisas como: «assumi que estarias em casa», «inicialmente, assumimos que era seguro», «não assumas se não tens dados suficientes para o fazer». O que, na verdade, estas pessoas querem dizer é presumir.

«Assumir» é um verbo transitivo que significa:
1.    tomar sobre si; atribuir-se
2.    encarregar-se de; arrogar
3.    adotar; ostentar
4.    alcançar; atingir

(Gostaria de ver um exemplo desta última aceção numa frase, porque não estou a conseguir imaginar a palavra com esse sentido, mas está bem.)

Só recentemente e ao que parece começou tudo no contexto da Filosofia (são terríveis, os filósofos...) – é que se começou a usar o «assumir» para significar a admissão de algo a título de hipótese, como base de uma investigação, de um raciocínio. Este novo «assumir» deriva muito diretamente to «to assume» inglês. Tal como usar «assunção» para traduzir «assumption», quando a tradução correta seria «presunção». Trata-se de um false friend.

À primeira vista, pode parecer presunçoso ligar a estas pequenas distinções e é fácil dizermos que o «assumir» pode ser facilmente estendido a um «presumir» se o usarmos no primeiro ou no terceiro sentido da lista de definições acima (ex.: «adoto uma determinada proposição como hipótese» ou «tomo como verdadeira certa informação»), mas nada há de menos presunçoso do que a simplicidade e a clareza. E presumir traduz tão melhor o que queremos dizer... pre-, antes, antes de termos a certeza. Em geral, só assumimos uma coisa depois de estarmos certos dela; já não há margem para especulações: encarregamo-nos, reconhecemos, adotamos. Assim, assumamos de uma vez por todas que, quando supomos, presumimos.

09/07/2012

Dicas para colegas

Quando comecei a traduzir livros, percebi rapidamente que precisava de uma régua para não me perder sempre que desviava o olhar da página. Aqueles segundos passados à procura da última linha em que se ficou tornam-se sumamente irritantes quando a situação se repete 50 vezes num dia. 
Procurei em papelarias, vasculhei a internet, mas nada. Sabia o que queria uma espécie de régua que se prendesse nas páginas e que eu pudesse ir descendo. Há coisas destas para folhas A4 (para quem faz transcrições, por exemplo), mas não para livros. Foi então que, eureka, percebi que a solução estava mesmo à minha frente, ora vejam:

Uma BIC, claro! A tampa agarra-se às páginas e a caneta marca a linha.

Na imagem podem ainda ver mais duas das minhas ferramentas. Para segurar o livro em pé e ligeiramente inclinado, uso um agrafador como suporte. Para manter o livro aberto, as molas são o ideal.

Têm outros truques deste género?

26/06/2012

so you want to be a writer? / então queres ser escritor?

if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.


if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.


if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.


don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.


when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.


there is no other way.

and there never was.
se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.


se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.


se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.


não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.


quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.


não há outra alternativa.


e nunca houve.


Poema de Charles Bukowski, incluído na colectânea Sifting Through the Madness for the Word, the Line, the Way. Tradução de Manuel A. Domingos.

20/04/2012

Leitura recomendada II


Gramática da Fantasia, de Gianni Rodari, editado pela Caminho, é um dos livros mais maravilhosos com que algum dia me cruzei. Com frases como «Se, apesar de tudo, não tivéssemos esperança num mundo melhor, quem nos convenceria a ir ao dentista?», faz da teoria pura diversão. É como se Hegel, os irmãos Grimm, Saussure, um cão com um armário às costas, Freud, o Capuchinho Vermelho, Novalis e a Branca de Neve se juntassem à volta de uma fogueira a conversar sobre como nascem as histórias. 

Li-o há alguns anos e volto sempre a ele com deleite. Recomendo-o vivamente a todos os que gostam de ler, de inventar e de existir, sejam autores de livros para crianças, pais, psicólogos, filósofos, madrastas, príncipes ou sapateiros. (A Feira do Livro está à porta, é aproveitar.)

A tradução, belíssima, é de José Colaço Barreiros, e, pelos vistos, deu trabalho.

01/03/2012

O perigoso ofício de tradutor

Os obstáculos à tradução não são só as dificuldades inerentes ao exercício de verter uma língua para a outra... No Irão, por exemplo, equivalem a um bilhete de ida para a cadeia.

Como relata este artigo, Mohammad Soleimani Nia, tradutor de Funny in Farsi, um sucesso de vendas que devolveu o riso a muitos iranianos (antes de ser banido), foi detido e levado para uma prisão algures em Teerão. Ninguém tem notícias dele desde essa altura. Nia passou a fazer parte do grande grupo de jornalistas, bloggers e afins encarcerados sem qualquer respeito pelos seus direitos mais básicos.

Segundo o autor do texto, que é também autor do livro em causa, «um tradutor é um alquimista que transforma a cadência, a voz, o significado e o simbolismo da minha língua para a do leitor, de uma cultura para outra. Alguém que dissemina ideias, aproxima mundos e apaga fronteiras. Este é um trabalho perigoso num lugar como o Irão...». 

Estamos longe de viver num mundo com livre circulação de ideias. Há muito a fazer nesse campo. Pode começar-se por aqui, por exemplo.