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18/11/2013

«Há x tempo atrás»

 
Quase toda a gente diz  ou escreve «há x dias/meses/anos atrás» e fá-lo sem pensar duas vezes. Se pensasse, constataria que quando dizemos que é porque já houve (ou está a haver, mas, como falamos de tempo, ele já passou; afinal, tempus fugit...) e, nesse caso, dizer atrás é pleonasmo, um pouco como «subir para cima». Percebe-se que esse complemento serve para reforçar a ideia de distância, mas não é, de todo, necessário.
Desde que me chamaram a atenção para isto há uns anos, nunca mais voltei a conseguir dizer o atrás.*
Não temos de estar obsessivamente atentos a tudo que dizemos, claro, mas é divertido repararmos nestas minúsculas grandes coisas (que têm o seu lado filosófico) e é conveniente exprimirmo-nos com clareza e aha! economia, quase sempre sinónimo de elegância e inteligência.


*Confesso que por vezes sinto saudades de uma certa ingenuidade na expressão, de quando não pensava duas vezes no que dizia, mas depois passa.

11/11/2013

Prioridades


No outro dia, encontrei esta imagem no mural de Facebook de uma pessoa próxima. Este tipo de «postais» costumam ter piada e são geralmente irónicos ou satíricos, mas por vezes os seus autores limitam-se a exprimir o enfado que sentem para com o resto do mundo, como acontece neste caso. O postal não me parece nada irónico e, francamente, não sei como pode alguém achar que é mais importante um pai conversar com um filho sobre gramática e ortografia do que sobre sexo e drogas. Não consigo pôr-me dentro da cabeça da pessoa que acha isso, mas conheço esse tipo de pessoas: as que se acham superiores aos outros por se exprimirem melhor oralmente ou por escrito, ou que acham que as deficiências ortográficas descredibilizam só por si narrativas ou argumentos bem formados. Geralmente, essas pessoas tiveram a sorte de terem tido acesso a uma boa formação académica, mas revelam falta de formação pessoal.
Sim, a gramática, a ortografia, a pontuação, a dicção, tudo isso são coisas importantes e devemos ser exigentes em relação a elas , mas não são prioritárias (que tal acabarmos primeiro com a fome no mundo, hein?), nem nenhuma deficiência a esse nível justifica uma postura de grammar nazi.
Relembrando as sábias palavras de Manuel António Pina: «Precisamos mais de boas pessoas [...] do que de bons escritores. Bons escritores há muitos, [...] boas pessoas não.»

31/12/2012

2012

O fim do ano obriga-nos sempre a olhar para trás e a refletir no que aconteceu nos doze meses anteriores. Pela minha parte, não me posso queixar: revi muito, traduzi vários livros, estou a escrever um, fiz uma viagem profissional a Luanda, ajudei autores, trabalhei com editores, amigos e empresas, reformulei dezenas de CV (algumas dessas pessoas já encontraram emprego!), escrevi para sites, para blogues, convivi com colegas, elaborei pareceres de leitura e ainda tive tempo para respirar, ler, fazer exercício físico e aproveitar as melhores coisas da vida.
Venha o novo ano. Estou pronta.

Um óptimo 2013 para todos, cheio de ideias e coragem para as concretizar!

04/10/2012

Quem sai aos seus...

Depois de ter escrito o post anterior, fui pesquisar o nome da agência responsável pela campanha da Moche. Ao que parece, é a agência O Escritório*, de que faz parte o meu primo Tiago Canas Mendes. Feliz coincidência. Ou talvez não. :)

*Também responsável pela fantástica imagem do canal 180.

07/08/2012

O valor das histórias

«O universo é feito de histórias, não de átomos», disse Muriel Rukeyser. Assim começa este artigo no site Brain Pickings (um dos meus preferidos) sobre o valor que conferimos às histórias. Elas não têm apenas um valor emocional ou intelectual, também se traduzem em dinheiro na forma de royalties ou noutra. 

As marcas, os media ou os políticos, por exemplo, são mestres na arte de converter as suas narrativas em ações alheias. Todos o sabemos, todos o sentimos e todos alinhamos.

Apesar disso, Rob Walker e Joshua Glenn decidiram fazer uma experiência para o demonstrar. A sua hipótese era a de que as histórias são tão poderosas que o seu efeito no valor subjetivo atribuído a um objeto pode ser medido concretamente. Assim, pegaram em cem objetos insignificantes e pediram a cem escritores que inventassem uma história para eles. Em seguida, puseram os objetos à venda, no e-Bay, acompanhados da respectiva história. O resultado? A tralha que compraram por 128,74 dólares foi vendida por um total de 3 612,51$. 



Podem saber mais sobre o projeto no site Significant Objects e no livro (um objeto com história sobre objetos com histórias) com o mesmo nome.

Pela minha parte, estou convencida de que o universo é feito de átomos e de histórias. A história da matéria, das coisas, do que é, e da nossa relação com tudo isso é a coisa mais fascinante da vida.

17/05/2012

Digno de nota


Quase todos caímos no mesmo erro repetidamente: dizermos a nós próprios «não vale a pena tomar nota desta ideia, não me esquecerei dela». A maioria das vezes esquecemo-nos. Não imagino quantas boas ideias nunca viram a luz do dia por causa desta atitude, mas não terão sido poucas.

É claro que de onde vieram aquelas ideias virão outras. O problema é que aquela pode nunca mais voltar. Além disso, o esforço de não nos esquecermos de uma coisa ocupa-nos neurónios que podiam estar a ser usados em tarefas criativas.

Apontar esses pensamentos permite-nos voltar a eles mais tarde, vê-los a outra luz e precipitar associações de ideias felizes. Ficamos livres para pensar noutras coisas e em coisas novas a partir das antigas. 
Estas notas poderão ser aproveitadas ou não, pouco importa. O importante é que as resgatámos. E quando nos sentimos bloqueados, perdidos, sem génio, visitar esse arquivo vivo consola-nos e dá-nos alento.

Basta ignorar a vozinha insidiosa que diz «não é preciso» e habituarmo-nos a pôr as ideias no papel. É meio caminho andado para fazer qualquer coisa interessante a partir dali. E mesmo que um dia perdêssemos os apontamentos, o simples facto de termos escrito o que nos ocorreu ajudaria a salvar algumas coisas do esquecimento.

Seja num bloco tradicional os de cima são da Emílio Braga, os Moleskine portugueses, e estão à venda n'A Vida Portuguesa , em papelinhos soltos (o meu caso) ou numa aplicação sofisticada, como o Evernote, vale sempre a pena gastar dois segundos a tomar nota.