21/11/2013

Deixar livros a meio (como leitores)

No blogue do Goodreads, encontrei o seguinte gráfico sobre livro deixados a meio, o que nos leva a fazê-lo, quais os mais abandonados, etc. Há muitas pessoas que se recusam a deixar livros (e filmes e refeições) a meio, mesmo quando não estão a gostar, mas muitas outras – como eu –, desistem se a experiência não lhes está a saber bem, seja por qual for o motivo. O motivo costuma ser a parte mais interessante do abandono. Já tenho largado um livro por a história não me estar a convencer, não gostar da linguagem usada, o autor nada ter de novo para me dizer, por não estar a perceber o objetivo de tudo aquilo ou por outras razões. Insisto, mas se o esforço não compensa, acabo por desistir de ler.

Quando alguém deixa um livro a meio, geralmente fá-lo zangado, porque ficou desiludido, ou então apático, porque simplesmente se desinteressou. Porém, descobri que nem sempre é assim. Há pouco tempo, larguei uma leitura a meio propositadamente e dei-me por completamente satisfeita: já tinha lido metade da obra, belíssima, imaginei o que aconteceria no fim (o que a contracapa - maldita - mais tarde confirmou) e sabia que o resto do texto seria igualmente belo. Só não seria surpreendente, nem na qualidade literária nem no enredo. Por isso, deixei-o a meio e parti para o seguinte. Já vos aconteceu o mesmo?





Se estão curiosos com o livro que larguei a meio, posso dizer-vos que foi O Templo Dourado, de Mishima. :)

18/11/2013

«Há x tempo atrás»

 
Quase toda a gente diz  ou escreve «há x dias/meses/anos atrás» e fá-lo sem pensar duas vezes. Se pensasse, constataria que quando dizemos que é porque já houve (ou está a haver, mas, como falamos de tempo, ele já passou; afinal, tempus fugit...) e, nesse caso, dizer atrás é pleonasmo, um pouco como «subir para cima». Percebe-se que esse complemento serve para reforçar a ideia de distância, mas não é, de todo, necessário.
Desde que me chamaram a atenção para isto há uns anos, nunca mais voltei a conseguir dizer o atrás.*
Não temos de estar obsessivamente atentos a tudo que dizemos, claro, mas é divertido repararmos nestas minúsculas grandes coisas (que têm o seu lado filosófico) e é conveniente exprimirmo-nos com clareza e aha! economia, quase sempre sinónimo de elegância e inteligência.


*Confesso que por vezes sinto saudades de uma certa ingenuidade na expressão, de quando não pensava duas vezes no que dizia, mas depois passa.

15/11/2013

Assentos e acentos








Lembramos: por mais que a população insista, «cu», «peru», «menu» ou «cru» não levam acento...

12/11/2013

De

Estas duas letrinhas – de – são, para algumas pessoas, as mais difíceis de gerir. Não me refiro ao «de» dos apelidos e sim ao «de» mais prosaico que devemos pôr aqui e ali para que o que dizemos e escrevemos faça sentido. Deparo todos os dias com exemplos de má utilização do «de», em que ele ora lá está, ora está em falta. Exemplos? Cá vão dois:

Ele chamou-me de estúpida.

Deite fora coisas [de] que já não precisa.

No primeiro caso, o «de» não faz falta alguma, basta dizermos «ele chamou-me estúpida» (temos muita pena, estamos certos de que foi injusto). No segundo caso, precisamos de um «de», porque precisamos de coisas, não precisamos coisas (precisar coisas é ser mais específico em relação a coisas).*


*Quanto a este último exemplo, há quem admita a ausência do «de»,  mas a meu ver devemos empregá-lo aqui, evitando ambiguidades.

11/11/2013

Prioridades


No outro dia, encontrei esta imagem no mural de Facebook de uma pessoa próxima. Este tipo de «postais» costumam ter piada e são geralmente irónicos ou satíricos, mas por vezes os seus autores limitam-se a exprimir o enfado que sentem para com o resto do mundo, como acontece neste caso. O postal não me parece nada irónico e, francamente, não sei como pode alguém achar que é mais importante um pai conversar com um filho sobre gramática e ortografia do que sobre sexo e drogas. Não consigo pôr-me dentro da cabeça da pessoa que acha isso, mas conheço esse tipo de pessoas: as que se acham superiores aos outros por se exprimirem melhor oralmente ou por escrito, ou que acham que as deficiências ortográficas descredibilizam só por si narrativas ou argumentos bem formados. Geralmente, essas pessoas tiveram a sorte de terem tido acesso a uma boa formação académica, mas revelam falta de formação pessoal.
Sim, a gramática, a ortografia, a pontuação, a dicção, tudo isso são coisas importantes e devemos ser exigentes em relação a elas , mas não são prioritárias (que tal acabarmos primeiro com a fome no mundo, hein?), nem nenhuma deficiência a esse nível justifica uma postura de grammar nazi.
Relembrando as sábias palavras de Manuel António Pina: «Precisamos mais de boas pessoas [...] do que de bons escritores. Bons escritores há muitos, [...] boas pessoas não.»

08/11/2013

Problemas pontuais

Clique na imagem para a aumentar.




06/11/2013

22 pistas (porque aqui não acreditamos em regras fixas ou soluções mágicas) para escrever histórias

Se estivermos atentos, aprendemos com tudo à nossa volta. Os filmes as histórias neles contidas são uma fonte de conhecimento especialmente rica e acessível. Os estúdios de animação Pixar têm-se revelado mestres a contar histórias. Emma Coats, que trabalhou naquela empresa, compilou em 2011 alguns dos princípios por que a equipa de guionistas e desenhadores se regia e que se podem aplicar a qualquer pessoa que escreva ou que procure orientação para começar a escrever. Pouco depois, Dino Ignacio pegou nessa lista de ideias e pô-las em imagens. Eis o resultado:



E, para rematar:

«I just watched a film where a man's wife is brutally murdered by a serial killer, and his son is left physically disabled. Then in a twisted turn of events, his son is kidnapped, and the man has to chase the kidnapper 1,000's of miles with the help of a mentally disabled woman. Finding Nemo is a real thriller.»

04/11/2013

«Write what you know»?




Este conselho «escreve sobre as coisas que conheces» , que se dá recorrentemente a quem escreve ou quer escrever, será útil para muitos, mas deixa-me paralisada. É verdade que, como aconselhei aqui, tenho a vantagem de já ter tido várias profissões, de já passado por muitos universos, mas para se escrever sobre aquilo que se sabe é preciso saber-se alguma coisa, e eu, precisamente, nada sei. Não tenho grandes certezas na vida, não acredito em nada dogmaticamente, matei cedo quase todos os ídolos, não me julgo portadora de qualquer verdade universal, pelo menos não de uma original ou que mereça transmissão direta. Assim, que me resta? Escrever sobre o que não sei. (É claro que posso escrever receitas de bolos que conheço, mas não é disso que estamos a falar.) E isto é vertiginoso. Sempre que dou «o» passo e me proponho escrever qualquer coisa minha, à minha frente, o abismo.
Felizmente, que a companhia sempre conforta, não sou a única com vertigens. E depois, claro, há uma ou outra citação amiga:

Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.
Gilles Deleuze

30/10/2013

Vírgulas

A utilização da vírgula dá dores de cabeça a muita gente. Embora haja algumas regras, também há muitas exceções e espaço para a subjetividade. Há vírgulas obrigatórias e proibidas (sempre com salvaguardas), que mudam completamente as ideias numa frase, mas também há vírgulas de estilo, que tanto podem lá estar, como não. A somar a isto há ainda o espírito da época, que ora subtilmente preconiza o uso profuso da vírgula, ora recomenda a contenção. Perante este cenário, como não ficarmos confusos? O melhor mesmo é conhecermos bem as normas principais e, no que diz respeito às outras situações, valermo-nos dos nossos sensibilidade e bom senso.
Em português,  as vírgulas são um assunto complicado, mas não é só na nossa língua que elas podem representar um problema. Até no inglês, sempre tão conciso e prático, há casos dúbios. Exemplo disso é a famosa oxford comma uma vírgula que se costuma usar depois do último elemento de uma enumeração , que alguns entendem essencial e outros, supérflua. Tão controversa é esta vírgula que até existem músicas em sua honra:



Há debates acesos entre escritores, revisores e editores sobre se uma vírgula deve lá estar ou não. Entre académicos, as discussões são ainda mais sérias. Feitas as contas, esta coisa das vírgulas importa muito? Importa qualquer coisa. Mas, por mim, desde que o texto se mantenha claro e escorreito, deve haver liberdade. E vocês, o que acham? Quanto mais vírgulas melhor ou o mínimo possível?

28/10/2013

Ah, as redes sociais, as redes sociais...

Blogues, twitters e facebooks são uma ótima maneira de comunicarmos uns com os outros. Contudo, também revelam muitas vezes o mal que comunicamos. Diariamente, todos tropeçamos em gralhas ortográficas, erros gramaticais e raciocínios confusos, nossos ou alheios. No outro dia, li a seguinte frase no mural de alguém no Facebook:  

«Agradeço imenso de me ter aceite no seu grupo de Amigos.»

Ora, como já vimos aqui, imenso não deve ser usado desta maneira. Depois, nós agradecemos coisas, não agradecemos de coisas. Como também já referi aqui, com «ter» dizemos «aceitado» e não «aceite». Por fim, porquê escrever «amigos» com inicial maiúscula? Não faz sentido.

De uma só penada, uma série de erros. Não é grave, claro que não, mas tem a sua importância. Quando escrevemos nestes fóruns (tão vintage, falar em fóruns, não é?) estamos  a escrever para o mundo. E o mundo já é um sítio tão violento... não precisa dos nossos pontapés na língua.

25/10/2013

Caça às repetições

Em muitas línguas ocorre-me em particular o caso do inglês , a repetição de palavras num texto não tem grande importância, não choca quem lê. Em português, se usarmos com frequência e proximidade uma determinada palavra isso pode soar mal. «Soar mal» não é meramente subjectivo, revela falta de estilo, ausência de desembaraço na escrita. Havendo tantos vocábulos, porquê repetir sempre os mesmos termos?

Embora, consciente ou inconscientemente, tentemos evitar as recorrências, a verdade é que muitos de nós temos tiques de linguagem, bengalas discursivas, de que nem nos apercebemos. Ainda que não escrevamos uma e outra vez «tipos» ou «pás» como os dizemos em conversa, podemos incorrer em sucessivos «poréns», «incrementar» ou «redarguiu ele», o que acaba por cansar o leitor. 

Os revisores e editores de texto costumam chamar a atenção para esses casos, mas os autores também podem fazer um autodiagnósticos usando ferramentas automáticas de contagem de palavras disponíveis on-line. Uma delas chama-se Textanz e é gratuita durante os trinta dias de versão experimental. Se tem um texto importante em mãos, experimente. Pode ser que se surpreenda e detete os seus chavões a tempo.


(Clique na imagem para a aumentar.)

14/10/2013

Aviso

Este blogue não está suspenso, está em suspense, porque vêm aí novidades...

17/05/2013

15/05/2013

Como escrever o seu primeiro argumento de cinema em trinta dias

Quem o explica é o João Nunes, guionista e publicitário. Visitando o seu site, pode descarregar o  e-book que o autor disponibiliza gratuitamente. O livro inclui um plano de trabalho e dicas de escrita.



Mesmo que nunca tenha pensado escrever guiões para filmes, peças de teatro ou televisão, esta pode ser uma excelente maneira de treinar os seus diálogos e de chegar a novas ideias. Talvez descubra até um talento adormecido. Aproveite a generosidade e transforme-a em criatividade. 
(Pode parecer um bocadinho «conversa de auto-ajuda» da minha parte, mas não arranje desculpas, vá, deixe de ser preguiçoso e ponha-se a escrever!)

14/05/2013

Plano de trabalho

Se o leitor pensa que os autores começam a escrita de um texto (seja de ficção ou não) na primeira página indo ao sabor da corrente até chegarem à última, está muito enganado. A boa escrita nunca é por acaso, por muito casual que pareça. Exige invariavelmente muitas horas de dedicação e, a maior parte das vezes, um plano. Esse plano, depois, pode ser mudado, até descartado, mas tem de haver um plano. E como os autores precisam de esvaziar a cabeça e de registar tudo para não se esquecerem, costumam passá-lo para o papel. Eis alguns exemplos:

Esquema para The Bell Jar, de  Sylvia Plath .

Grelha para Catch-22, de Joseph Heller.

Pode encontrar outros exemplos aqui.

Enquanto isso, já pensou na sua estratégia?